[Entomofungo-l] Mensagem do Rogério

Marcos Faria mrf39 em cornell.edu
Sexta Abril 10 12:55:42 BRT 2009


Rogério e demais colegas,

Bom dia!

A pedido do Alcides, ao invés de dar um "reply" para uma mensagem grande, 
estou realçando apenas os pontos da mensagem do Rogério que pretendo abordar:

- Um protocolo simples, mesmo que cientificamente imperfeito, é de grande 
valia para o mercado;

- A emissão de laudo baseado no protocolo aperfeiçoado (com fungicida e 
tempo de leitura aumentado) deveria ser opcional, a pedido do consumidor 
interessado. Este protocolo, em função do seu custo maior, seria adotado 
nos casos em que se queira tirar dúvidas e resolução de conflitos.

- Uso de valores de referência para viabilidade: 75-100% de viabilidade = 
categoria produto bom, etc... (uso de faixas)


Concordo parcialmente com as suas colocações. Um protocolo simples pode ser 
de grande valia para uso no dia-a-dia do laboratório (dependendo da 
natureza do teste), mas quando o objetivo é avaliar com precisão a 
viabilidade ou avaliar a qualidade de produtos comerciais para emissão de 
laudos, a metodologia a ser empregada tem que ser muito precisa do ponto de 
vista científico. A importância de laudos de avaliação de produtos é 
gigantesca, não apenas para um consumidor decidir se vai efetuar ou não uma 
compra milionária, mas até mesmo para uso na justiça contra fabricantes que 
agem de má fé. A responsabilidade de quem emite laudos é imensa e, por 
isso, o uso da melhor metodologia disponível é imprescindível, até mesmo 
para resguardar a instituição emissora de dores de cabeça. Felizmente, para 
avaliações quali-quantitativas de micoinseticidas, a qualidade da 
metodologia é incrementada sensivelmente sem trabalho extra (o trabalho 
extra é pesar 5mg de fungicida) e o custo extra é desprezível (5 mg de 
benomil para preparar um litro de meio, suficiente para dezenas de 
análises, fica em alguns centavos nos mercados onde o produto é 
encontrado). Ou seja, o método com adição do fungicida é simples, barato, 
rápido e, sobretudo, mais preciso e com maior possibilidade de 
reproducibilidade que a metodologia convencional conforme abordado pelo 
Ítalo. Veja só este exemplo real: em um dos ensaios que realizei, conídios 
do mesmo lote de Metarhizium foram divididos em dois grupos: um deles foi 
submetido à hidratação enquanto o outro foi desidratado. A viabilidade do 
Metarhizium hiper-hidratado foi de 91% após 24 h de incubação a 25C, mas a 
dos conídios hiper-desidratados foi estatisticamente inferior, de 81%. Com 
48 h estes percentuais foram maiores para os dois casos, chegando a 94% 
para os conídios hidratados. Portanto, fica claro que emitir um laudo 
baseado em leituras realizadas com 24 h (ou pior ainda, 16-18h) não 
expressa fielmente a correta viabilidade conidial de M. anisopliae. Pode 
parecer pequena, mas uma diferença de 10% pode ter sérias repercussões, 
pois se o consumidor estiver na dúvida entre dois produtos semelhantes, mas 
um deles com 91% de germinação aparente e o outro com 81%, a opção recairá 
sobre o primeiro, muito embora os dois tenham a mesma viabilidade real. E, 
ainda, é provável que o produto com menor viabilidade aparente tenha uma 
vida-de-prateleira muito maior em função do menor teor de água. A emissão 
do laudo baseado no protocolo aperfeiçoado tem que ser a regra, porque 
muitos consumidores não conseguem e não têm tempo para tentar entender as 
diferenças entre protocolos. O que eles querem é um laudo imparcial emitido 
após o emprego da melhor metodologia disponível, que não deixe dúvidas 
sobre a verdadeira qualidade do produto. Entre pagar X por um laudo 
duvidoso ou X + alguns centavos por um laudo mais informativo, acredito que 
não há dúvidas sobre a melhor opção.


Muito bom vc levantar a questão de como deve ser a apresentação do laudo. 
Um produto com 90% de viabilidade real e baixa concentração pode ser muito 
pior que um produto com 60% de viabilidade real e concentração mais 
elevada. Por isso é que o laudo tem que ser expresso na forma de "Conídios 
viáveis por litro ou Kg do produto comercial".  O ingrediente ativo é o 
conídio vivo, e o conídio morto é só prejuízo para o consumidor - ele paga 
pelo peso, transporte, armazenamento e aplicação de algo que não tem 
função. O número de conídios viáveis leva em consideração os dois fatores, 
concentração e viabilidade. No caso de sacolas com 200gr de arroz 
colonizado pelo fungo, resultados poderiam ser apresentados da seguinte forma.

PRODUTO 1:
Concentração média: 1 x 10E12 conídios por Kg (2 x 10E11 conídios por sacola)
Viabilidade média: 90%
NÚMERO DE CONÍDIOS VIÁVEIS: 9x10E11 conídios viáveis por Kg (1.8 x 10E11 
conídios viáveis por sacola)
(esta informação sobre o número de conídios viáveis deve ser apresentada em 
letras garrafais, em destaque)

PRODUTO 2:
Concentração média: 2 x 10E12 conídios por Kg (4 x 10E11 conídios por sacola)
Viabilidade média: 60%
NÚMERO DE CONÍDIOS VIÁVEIS: 1.2x10E12 conídios viáveis por Kg (2.4 x 10E11 
conídios viáveis por sacola)

Veja que o produto 1, apesar de apresentar maior viabilidade, tem 33% menos 
conídios viáveis (= ingrediente ativo) que o produto com menor viabilidade.


VALORES DE REFERÊNCIA

- maior que 3 x10E12 conídios viáveis por Kg ou L = ótima concentração de 
conídios viáveis
- entre  2 e 3 x10E12 conídios viáveis por Kg ou L= bom
- entre  1 e 3 x10E12 conídios viáveis por Kg ou L= ruim
- abaixo de 1 x 10E12 conídios viáveis por Kg ou L = péssimo


Obviamente que estes valores de referência são para discussão. É importante 
manter os níveis elevados para forçar as empresas a melhorar a concentração 
de conídios viáveis em seus produtos.

A experiência do Rogério é fantástica e a maior parte das observações e 
comentários da mensagem anterior foram muito pertinentes. Apesar desta 
longa mensagem, a minha única discordância é sobre o uso da metodologia 
convencional vs. metodologia aperfeiçoada. Eu abordei também a questão dos 
valores de referência, embora a idéia do  Rogério não foi apresentar 
valores definitivos para os laudos, mas dar início a esta discussão que é 
tão relevante. Por mais perfeito que seja a metodologia de avaliação de um 
produto, o laudo não tem valor algum se o consumidor não consegue 
entendê-lo e se não consegue usá-lo corretamente para comparar produtos 
diferentes.

Abcs a todos e um ótimo final de semana.
Marcos Faria




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